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1999

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É 1999 fazem apenas vinte minutos. Deveria estar lá fora com meus amigos, festejando e negando champagne, mas mesmo com a visão dos fogos ao longe me sinto terrivelmente mal nessa cobertura do Leblon. Vi alguns fogos e ainda os ouço lá fora. Se alguém descobrir que eu entrei para escrever, me matam. Tudo bem. Corro o risco, pois a necessidade é grande.

Me sinto muito apreensivo quanto ao ano de 1999. Não acredito que será melhor que 98, porém acredito em mudanças. Não planejei nenhuma, mas penso em planejar e isso já é uma mudança. Vou dar uma volta lá fora pra ninguém sentir minha falta. Volto no próximo parágrafo.

Meu computador veio para cá mais cedo, com outros que estão em rede. Não tem muita gente que faz isso no ano novo, mas esses somos nós: uma mistura de engenheiros nerds, artistas alternativos, advogados duvidosos e mais um punhado de gente que em teoria não deveria nem se misturar, mas que dá certo por razões que não sabemos e temos medo até de descobrir. Gente maravilhosa que ri, namora as moças, faz redes em TCP/IP, churrasco bom, vai para as boates, viaja junto, sobem nos palcos… e tudo sem ter nada realmente em comum a não ser o próprio grupo. Agora mesmo ligou alguém pra cá e atendi (está todo mundo lá fora). A voz do outro lado em meio ao barulho sobrenatural de passagem de ano de onde quer que estivesse, reconheceu minha voz e gritou:

– Não Pode Parar!!!

– Alô?

E a linha caiu. Ou ele desligou. A voz parecia meio bêbada. Quem gritaria bêbado a essa hora pra cá? E exclamando nosso grito de guerra? Os mais prováveis são os dois que vieram, mas são justamente os únicos que não bebem. Descobrirei em poucos dias. Temos dois gritos de guerra e o segundo é para quando alguém vacila: “Amador é foda!”. Carregamos a reprovação enchendo a boca no palavrão. Quem ouve com razão por ter feito qualquer bobagem, não se esquece mais. Uma vez um deles esqueceu de fazer o rodízio de pneus antes de descer a Serra das Araras, deslizou e foi parar no acostamento. Nós, do carro atrás, paramos para acudir. Quando o motorista revelou a razão, recebeu um harmonioso “Amador é foda!” e recebeu ajuda de castigo num canto pra repensar suas prioridades. Desde então, volta e meia balbuciava coisas como “pneu é tudo, gente.”. Traumatismo do bem.

Tá tocando “House Of Rising Sun” no meu computador. Vou salvar o texto e já volto.

Os advogados demonstravam métodos de falar coisas sem sentido de modo que pareçam certas. Peguei minha máquina fotográfica que estava ao lado da piscina (péssima idéia) e tirei uma foto minha. Tomara que eu saia tão bem quanto mereço. Vou ver se coloco em anexo com esse texto. [Essa foto foi perdida, mas o leitor não perde nada]

Pronto. Tô me sentindo até melhor. São 00:29 e começo a achar que o caminho é esse: produção.

Tenho de manter meu apê, trabalhar, poder viajar e produzir! Produzir muito! Contos, crônicas, blues, peças, livros, o que for… Preciso escrever! Preciso tocar! Preciso fazer!

Se segura 1999! Quem será que eu vou comer esse ano?

Tá tocando “Send Me On My Way” do Rusted Roots agora. Cancãozinha meio safadinha. Feita pra ser pop e animadinha e fazer um dinheirinho, mas que bota pra frente mesmo. Nada de errado nisso. Tá certo quem fez.


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