É imprescindível dar-se a licença de ser escritor ou roteirista. Você se deve isso de uma maneira que nunca deverá aos outros, então o faça quanto antes para que você seja seu primeiro, pior e único relevante credor. Ao terminar de escrever seu manuscrito aceite de uma vez o fato e declare – se possível em voz alta – “Sou escritor” ou “Sou roteirista” seguido de um mandatório exclamativo de baixo calão pra pontuar essa realidade.
Essas duas classificações, apesar das técnicas e ferramentas que compartilham, são rótulos distintos para atividades distintas. O que diferencia o escritor do roteirista é simplesmente a prática e você pode praticar ambas atividades sem o aval de terceiros. Quem cozinha regularmente para outras pessoas pode ser considerado um cozinheiro sem que o rótulo indique nível de profissionalismo ou grau de habilidade. Uma profissional da cozinha pode ser apenas razoável no preparo de pratos salgados, mas uma magnífica confeiteira. O que a torna profissional é apenas o fato de que alguém lhe paga por esse trabalho. Se fizesse de graça ainda seria uma cozinheira ou confeiteira. O mesmo acontece com a escritora e a roteirista.
Em sociedades alfabetizadas o termo “escritor” pode parecer vago como o de “corredor”. Todo mundo sabe correr, mas claro que existe uma expectativa coletiva ao lidarmos com o resultado final. Até pouco tempo ter um livro publicado era o que definia se uma pessoa era ou não escritora – uma definição capenga pois exclui autores postumamente publicados, cronistas de outras mídias impressas, ficcionistas de mídias digitais e toda uma gama de “operários da escrita” e autores de obras não necessariamente ficcionais. Inaceitável. Como atualmente publicar um livro é mais fácil que escrevê-lo, cabe a nós redefinirmos o termo a nossa maneira, mas se aceitando como escritor de acordo com a própria opinião. Na minha, o escritor é quem se vê obrigado a revisar constantemente cada frase que escreve. Não por excesso de preciosismo ou compulsão, mas por respeito pelo ato e desejo de comunicar-se da melhor forma possível com as ferramentas e repertório que possui. Na sua opinião, talvez eu não seja nenhuma das duas coisas e eu estaria perdendo nosso valioso tempo com essas linhas. Para evitar essa tragédia, melhor concordar comigo.
Essas duas classificações podem ser mais restritas entre acadêmicos, concursos culturais ou créditos acordados por produtoras sobre obras produzidas. Com exceção dessas tecnicalidades, não há razão alguma para você não se sentir merecedor de se declarar “escritor(a)” se você escreve. Se houver dúvidas ainda sobre o que define um roteirista, a resposta é simples: o roteirista é aquele que terminou de escrever um roteiro de audiovisual. Não importa se é um épico cinematográfico de 400 páginas ou uma propaganda de 30 segundos para a web. O que importa é finalizar a tarefa. Um roteiro inacabado não é um roteiro e sim um rascunho e rascunhador não existe.
