[[Conto da sĂ©rie â20 Contos Sobre O BalcĂŁoâ (Contos baseados em anĂșncio de classificados do Jornal BalcĂŁo)âââVocĂȘ pode ler outro aqui.]]

 Mal abrira a porta de casa e jå gritou do corredor ainda com as chaves na mão.
â O que Ă© isso, Josias? O que que Ă© isso?
Josias veio correndo dos fundos da casa e a encontrou estĂĄtica olhando para dentro do banheiro. EufĂłrico, respondeu com um sorriso orgulhoso:
â Uma vaca anĂŁ.
â Uma⊠vaca anĂŁ?
â Na verdade sĂŁo duas. Que bom que vocĂȘ voltou, amor! Como foi o simpĂłsio? Tudo bem por lĂĄ?
â HĂŁ? Sim, masâŠ
â Que Ăłtimo! Eu andei super ocupado tambĂ©m! E essa chuva que nĂŁo para? Coisa de louco!
â Que? Josias! O que essas duas vacas anĂŁs estĂŁo fazendo no meu banheiro?
â Seu banheiro? LĂĄ vem vocĂȘ! Desde quando o banheiro Ă© seu? O banheiro Ă© nosso.
â Josias!!! Tem uma vaca-anĂŁ no meu banheiro! O que foi queâŠ
â Ah! Eu pago as contas da casa, mas o banheiro Ă© seu, nĂ©? SĂł porque vocĂȘ passa horas e horas no NOSSO banheiro e eu me resigno a usar o lavabo pra nĂŁo te incomodar, o banheiro Ă© seu?
â Josias! Vacas!
â TĂpico isso! VocĂȘ confunde gentileza com subserviĂȘncia. O banheiro Ă© meu tambĂ©m, ok? Pelo que saiba o apartamento inclusive estĂĄ no meu nome.
â A vaca, Josias! Tem uma vaca no m.. banheiro! â Marisa apontava freneticamente para uma das vacas que parecia um pouco constrangida.
â NĂŁo muda de assunto, Marisa. E sĂŁo duas. Uma estĂĄ atrĂĄs da porta. Cuidado ao entrar.
â AtrĂĄs da⊠que diabo Ă© isso? VocĂȘ enlouqueceu? Deixa eu fechar essa porta;
â Mas, mĂŽr!
â Que risadas sĂŁo essas?
â Pronto! Satisfeita? VocĂȘ acordou as marrecas no quarto.
â Marrecas?
â Importadas, minha cara! Material muito do fino. Duas marrecas lindas!
â Eu estou ficando tonta. Preciso me sentar.
â Senta no sofĂĄ da sala porque vocĂȘ pode acabar assustando os pavĂ”es.
â PavĂ”es?
â Lindos de morrer. Um deles abriu as plumas agora, tirei uma foto e postei no Insta. NĂŁo escrevi legenda porque ainda nĂŁo dei nome pra eles. Estava esperando vocĂȘ chegar. Amor, vocĂȘ tĂĄ meio sem cor. Aconteceu algo na viagem de volta?
â Foto? Nomes?
â Ă. Os faisĂ”es eu jĂĄ tomei a liberdade de batizar. Um se chama TeĂłfilo, ou Otoni, e a fĂȘmea eu chamo de SeropĂ©dica. O que vocĂȘ acha?
â SeropĂ©dica?
â A gente pode trocar. Ainda nĂŁo estĂŁo apegados. Eu dou nome aos cisnes ou para os pavĂ”es e vocĂȘ rebatiza os faisĂ”es. VocĂȘ nĂŁo parece muito bem. Quer uma ĂĄgua?
â Cisnes?
â No box. Um casal inter-racial. Um preto e outro branco. Pensei numa lista de nomes temĂĄticos.
â Eu estou meio zonza.
â Mussum e Zacarias, Yin e Yang, Alpino e Opereta, Grande Otelo e AnkitoâŠ
â Ankito? Calma aĂâŠ
â Oscarito pareceu Ăłbvio demais.
â Mas o que Ă© isso, Josias? Enlouqueceu? Por que esses animais estĂŁo aqui? Como foi que⊠ei! Aquilo Ă© um pĂŽnei?
â Ah, vocĂȘ notou! Tentei guardar por Ășltimo. Elegante, nĂ©? Eu batizei de âCavalo de Fogoâ! Mas, temporariamente. Eu sei que vocĂȘ queria muito um pĂŽnei quando era criança.
â Josias, fala comigo direito. Me explica isso!
â Certo. Acho melhor vocĂȘ sentar.
â Eu jĂĄ estou sentada. Sentada e chorando. O que vocĂȘ tĂĄ fazendo?
â OquĂȘi. NĂŁo tem jeito de dizer isso de uma maneira mais simples: foram ordens do Senhor.
â Que senhor?
â O Senhor. Com âSâ MaiĂșsculo. Nosso Senhor, Deus!
â Josias⊠vocĂȘ enlouqueceu, criatura. O que estĂĄ errado na sua cabeça, meu deus?
â LĂĄ vem vocĂȘ de novo! âMeuâ, âmeuâ, âmeuâ! Ă NOSSO, Marisa! Nosso Deus!
â Eu preciso de um calmante!
â Ele me deu esse toque de construir uma arca e juntar dois animais de cada espĂ©cie. Um casal de cada, sabe?
â Arca?
â TĂĄ ali em cima da mesa, Ăł. Madeira de lei! Coloquei uma fechadurazinha tambĂ©m.
â Josias, olha pra mim! VocĂȘ nĂŁo estĂĄ bem.
â NĂŁo chora, querida.
Marisa saiu correndo pela porta. No dia seguinte vieram os mĂ©dicos, mas Josia nĂŁo estava mais ali. Foi encontrado quarenta dias depois em uma cadeia no sul do paĂs, preso sob a acusação de invasĂŁo do Beto Carreiro World. Havia tambĂ©m a acusação de furto: uma tigresa e um leĂŁo desaparecidos. Depois de transferido para uma clĂnica psiquiĂĄtrica, Marisa o visitou.
â Josias, a polĂcia quer saber da tigresa e o leĂŁo.
â Nunca acharĂŁo!
â Josias!
â E nossos bichinhos?
â Vendi os bichos. Vendi todos.
â Como assim? Eles eram NOSSOS, Marisa. VocĂȘ tinha de ter me consultado. Ă mentira! NĂŁo!
â Ă verdade. Trouxe o anĂșncio.
EXĂTICAS: Cisne negro; cisne branco; pavĂ”es; faisĂ”es; marrecas importadas; vacas anĂŁs e pĂŽneis. T.: 9xxx-xxxx, T.8XXXX-XXXX.
