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Feliz é quem mergulha

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Todo verão lembro que sou branco. Não que durante as outras estações me esqueça — afinal, vivo no Brasil e já tive uma banda de blues — mas no verão lembro que sou “branco-colonial”. Não bronzeio, eu coro.

Agora começa mais um verão e todos vão à praia. No Instagram, Facebook, twitter… é tanta foto de céu, areia, mar que me peguei comprando um saco de biscoito de polvilho (doce) e um mate (limão) para acompanhar o swipe das timelines. Juro. Fiz duas vezes nessa semana. Sinto falta da brisa do mar, de cortar a onda no primeiro mergulho, girar o corpo e pegar um faux-jacaré lateral… só para reativar a memória muscular e sorrir dentro do caldo, sinto falta até da leseira pós-praia.

Aqui em São Paulo está abafado demais e tenho a sorte de morar no primeiro andar de fundos em um prédio sem piscina cercado por três prédios com piscinas. Da janela do meu escritório dá para ver as três. A da esquerda sempre tem festa com música excessivamente popular, a da direita tem crianças e a da frente tem as moças lagarteando sobre o fulget creme. Splash, splash, corpo sadio submergindo que nem propaganda da Kolinos pra mergulhar de novo, splash, splash, na borda a menina sorri erguendo uma lata de refrigerante diet, splash, splash, splash… e eu enfurnado no calor do desktop caçando promoção pra pegar um bate e volta pro Rio de Janeiro.

É o Rio seduzindo através de terceiros perversos em suas postagens ou alheios ao meu sofrimento. Mas se eu voltar tenho de encarar o Sol — Uso o nome próprio com o “s” maiúsculo porque nunca tivemos intimidade. Durante anos tentei ser seu amigo e só sofri com o bullying. Fortunas gastas com Caladril e Solarcaine Spray e noites revirando entre o colchão e a parede. Esquentei muito a parede do lado da cama com minhas costas tonalizadas entre salmão à tijolo refratário (não sei os códigos Pantone de cabeça).

Aí fico astrólogo: aflito, na casa desafortunada, procurando por uma aplicação mútua no esquema do céu entre CGH/SDU no Decolar.com e um tempo nublado no Climatempo. Tenho de encontrar essa conjunção mágica antes que surja um novo job de roteiro… porque aí não consigo ir viajar para o Rio ou escrever. Duas coisas que sinto falta. Feliz é quem mergulha.

– São Paulo, Jan 9, 2017.


[continuação – 3 meses depois]

Não deveria reclamar muito nessa vida. O faço somente porque já possuo tradição cultural no esporte e seria desrespeitoso parar. Dito isso, quero deixar claro que estou ciente que pedi certas coisas aqui e rapidamente a providência me satisfez. Obrigado. Agora, vamos tratar das miudezas que alimentam a verve…

Com uma semana vivendo a poucos passos da Praia da Macumba posso afirmar categoricamente que o mar daqui não é o seu, Caymmi.

“O mar… quando quebra na praia… é bonito… é bonito.”

Aqui não é não. Não dá pra dizer que é feio, porque é mar e está em posição privilegiada, de frente (ou costa) para a praia. Colocando assim fica muito distante da compreensão humana dizer que é feio, mas a natureza marítima desse aí é outra.

Não é praia de canoeiro e nem de pescador. Não é praia nem mesmo de turista ou dos adeptos do banho salgado medicinal (só recomendado das 5h às 7h). Dois metros pra dentro e já não dá pé, Dorival. Aí não dá.

O povo do surfe é que gosta muito. Vão lá, corajosos, desde cedo dando seus tapas e chutes no mar com um vigor. Impulsionam suas pranchas impulsionando seus corpos curtidos na base dessa violência. São rapazes e moças muito saudáveis de físico. O papo com eles não é lá essas coisas, mas são bonitos de ver. Qualquer outra utilidade me escapa.

O mar da Macumba é menos fascínio e mais assombro… até quando está pequeno. Ainda não vi grande, mas deus que me livre! Deve ser terrível.

De vez em quando me aproximo, mas com todo o respeito que me impõe esse mar. Puxo um cigarro, fico quase imóvel e finjo pensar em algo profundo enquanto estudo o horizonte. Depois volto apressado pra dentro da casa para não parecer um doido varrido, ou pior: um poeta. O processo não toma cinco minutos. Corro para o quarto para escrever e esperar a noite chegar. De noite não dá pra ver esse mar, mas é só abrir a porta para ouvir a arrebentação. Durmo então de janelas fechadas para que ele não invada meu quarto e afogue meu sono pelo ouvido.

Pois bem, Dorival… na frente dessa casinha tem uma piscina. Ao contrário das piscinas que cercam meu apartamento em São Paulo, essa é menor, mas posso usar. Não usei ainda porque acho despeito. A praia ali a 30 passos contados e eu considerando piscina? Não pode, né? Eu tinha de criar vergonha e entrar nesse mar de peito aberto, dar umas braçadas sem medo e boiar de barriga pra cima pensando em nada. Mas isso não vai acontecer porque sei que tomaria um lindo caldo na orelha e só sobrariam suas lorotas sobre como é doce morrer no mar. Morrer não pode ser doce, Dorival. No mar então deve ser o oposto. Doce é quindim.

Espero hoje sonhar com quindim e não com esse mar. Desculpe. A providência está avisada: quindins.


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