Em um bar na Barra Funda, o garçom me perguntou: “para quantas pessoas a mesa?” e eu não soube responder. Deveria dizer “cinco”, pois convidei ao todo quatro pessoas, mas entendo agora que se tornou improvável acertar essa conta. O que são cinco se não três, seis, oito ou dez?
Não sei quando esse mal foi plantado ou se alastrou em São Paulo. Perguntei por aí e ninguém sabe ao certo também, mas cá está, normalizado o fenômeno de certos convidados à uma mesa de bar convidarem terceiros sem o consentimento de quem lhes convidou. Nas últimas três vezes que convidei pessoas à bares aqui, elas trouxeram a tiracolo outras como se fosse algo muito natural e esperado. Não era esperado. Pelo menos não na minha experiência de morador de São Paulo por mais de uma década. Não vou me aprofundar sobre a frustração de ver meu trabalho de curadoria de mesa se despedaçar com um convidado terceirizado que deveria ter ficado em casa para o bem de todos. “Ah, vocês todos trabalham com audiovisual? Que legal! Eu produzo comida pra cães.”. Não. Alerto para algo menos pessoal e mais pernicioso, pois como não se convida amigo para bar pouco movimentado, esse fenômeno cria uma dinâmica horrível entre quem abre a mesa e os garçons ocupados com a enxurrada de outros fregueses que também querem mesas.
– Vamos começar com cinco então pois estamos em dois e mais três outros estão chegando. – respondi com uma certeza de causar desconfiança para essa afirmação. Um desperdício de convicção. Quantas promessas de “outros estão chegando” foram quebradas sob o olhar decepcionado desse garçom? Essas pequenas derrotas abalaram seu espírito? Se sim, não transpareceu. Entusiasmadamente agiu com a fé cega que essas três pessoas realmente chegariam logo. Adicionou uma mesa à nossa e reorganizou o layout do salão com as que estavam em volta após nos servir os cardápios e tornar-se escasso. Retornou segundos depois de baixarmos os cardápios e trouxe nossos pedidos iniciais com simpatia e sem demora. Tudo nas mais perfeita ordem. Profissional. Cinco estrelinhas.
A trupe demorou, mas chegou trazendo mais três pessoas que nunca vi na vida e que não fiz questão de lembrar depois. Éramos então em oito quando fui avisado que mais duas pessoas estariam vindo – “Duas que poderiam ser três” – e que também teriam de me apresentar. A terceira mesa foi adicionada pelo garçom que não organizou mais nada pois o salão já estava repleto com outros fregueses. Enquanto aguardávamos as duas ou três novas pessoas, quatro se despediram nos deixando uma mesa vazia velada pelo garçom ansioso por sentar outras pessoas que faziam fila lá fora. Somávamos quatro e como os novos desconhecidos demoravam a chegar pedi para que ele, agora justamente aborrecido, retirasse a nova mesa. Uma hora e meia depois surgiram os tais três novos convidados por convidados que não convidei. Não havia mais mesas. Sugeri pedirmos a conta, mas tanto os que já deveriam ir quanto os que acabaram de chegar exigiram a saidera. Além de não haver hora para começar, agora em São Paulo também não há hora para se terminar um evento social. Em um passado não muito distante havia pelo menos uma esperança de alguém colocar a mão na consciência, dar um leve tapinha na mesa e dizer “Tenho de ir. Amanhã eu trabalho”, “Moro longe” ou “Sou filho único, tenho minha casa pra olhar”, mas nem isso mais. A sensatez do espírito empreendedor foi substituída pela autoestima altiva de quem está com as contas pagas mesmo que não trabalhe no dia seguinte… mesmo que isso não seja verdade. Tem algo errado aí.
A semente da doença é plantada pelo convidado que convida. A completa falta de etiqueta ou consideração para com a casa (e primeira pessoa a convidar) fazem dos fregueses a pior parte do trabalho de um garçom. O atendimento inicialmente cortês se transforma em seco, depois duro e finalmente indisposto ou desinteressado. A partir daí a má qualidade de serviço impacta nas contas do bar e custos terão de ser cortados. As porções ficarão menores e com funcionários e produtos mais baratos a comida ficará pior e mais demorada para sair. Adubada com a displicência e regada com farta ineficácia, da semente plantada ali brotará então a figura do Garçom Folclórico: aquele que tenta todos os dias sobrecompensar esse quadro tenebroso de má qualidade generalizada esbanjando uma falsa simpatia e um excesso de intimidade já no primeiro contato com o freguês. No dia seguinte você comentará com o cônjuge sobre o local e o foco será aquele garçom “figura”. É seu único recurso agora: ser o diferencial do local para o bem ou para o mal.
O Garçom Folclórico é incapaz de dizer que algum prato do cardápio naquele dia não está tão bom (“Tudo está ótimo!”), oferece trazer um vidro de pimenta e não o faz até que você o lembre depois. O Garçom Folclórico mal te ouve ou te vê mesmo estando ao seu lado, mas te chama por apelidos similares aos que alguns clientes abusados lhe costumam chamar (“Chefe”, “Campeão”, “Meu Patrão” etc). Lhe trata como se fosse de casa, mas sugere somente os pratos mais caros. Se mostra solícito em toda sua nova exuberante postura e afetada fala, mas não entrega bons resultados. O Garçom Folclórico faz mais do que ignorar o seu pedido de não colocar uma rodela de limão na Coca-Cola, ele traz o copo com duas rodelas “no capricho”. É dos que serve mal com um enorme sorriso. Conheço bem essa corrupção do tecido social. Em São Paulo esse coquetel venenoso está sendo bebericado, mas há décadas pode ser sorvido à enormes goladas não tão longe dali. Se o paulistano insistir nesse comportamento leviano tão incaracterístico à sua natureza, sofrerá com a maldição dos Garçons Folclóricos que domina os bares e restaurantes cariocas há gerações.
Sim! Era de se esperar do paulistano ter hora para chegar, sair e saber quantas pessoas sentarão à mesa do bar! Teria o constante aquecimento da temperatura que lhe fez desfazer o nó da gravata mais cedo e por mais vezes? Uma enorme influência da cultura carioca – causada por imigrantes ou anos de ponte aérea barata – que permitiram esse indigno apropriamento cultural? Por favor, parem! Nem tudo numa cultura é bom ser adquirido. Imagine se a pizza carioca chega por aqui? Pode começar simplesmente com alguém pedindo um catchup. Parem enquanto há tempo! Ninguém no Brasil deseja o paulistano extrovertido, com arroubos de espontaneidade ou displicência. Isso já temos em outros estados pra cima. Não percam a si mesmos em toda sua essência tão própria e bela. É off-brand, São Paulo! Entende assim? Se o arquétipo cai, descarrilha-se a tal da locomotiva econômica e com isso não terá mais volta. Imagine o paulistano sem o trabalho? Impensável. Impossível. Inimaginável.
Dois dias depois, em uma festa particular em Vila Ipojuca com foliões chegados de blocos vespertinos de carnaval e gente à paisana vinda de outros lugares, sou apresentado a um paulistano raiz que começou a namorar uma amiga carioca. Em menos de um minuto declarou:
– Mano, tô amando o Rio. Passei a vida inteira falando mal sem nunca ter ido. Aqui conheço um monte de gente que faz isso. Agora fui duas vezes e tô apaixonado! Era puro preconceito mesmo.
Suspirei triste. Talvez seja tarde demais. Algo terrível está por vir e com mais dois ou três algos que terão de ser apresentados.
