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Américo

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Américo era casado e isso por si só bastava. Já passara dos quarenta e tinha de assumir uma atitude madura em relação à vida. Tinha esposa e planejavam ter um filho no ano seguinte. Era um daqueles conservadores clássicos de interromper uma conversa de bar dizendo que “um homem tem de ter valores!”  quando a o assunto caía para adultério ou pouca vergonha.

O fato é que a recente mudança para Ipanema não fizera muito bem aos seus valores. Mesmo evitando a praia era tentado a cada esquina por um desfile de beldades bronzeadas e cobertas apenas por esvoaçantes túnicas árabes (Américo não sabia o nome ou entendia completamente o conceito da canga). As visões mais terríveis eram das moças que trajavam camiseta longa por cima da roupa de banho, deixando as pernas à mostra e sugerindo a ausência de qualquer outra peça. Era mais fácil ser ascético no Méier.

Naquela tarde voltara cedo para casa e, atravessando a Praça Nossa Senhora da Paz, foi interrompido pela visão de crianças com as mães e babás reunidas perto de uma estátua. Nunca tendo feito o trajeto naquele horário, parou ali para admirar a alegria das crianças, mas achou ser um absurdo — na certeza do pai exemplar que seria —  o fato de não haver sequer um homem cuidando de seus filhos. “Um absurdo!” – repetiu em pensamento enquanto se sentava no banco.
— Também acho.
Tomou um susto. Quando ligeiramente distraído, às vezes Américo dizia o que pensava sem perceber. Dessa vez alguém ouviu. Quando muito distraído também não via pessoas ao seu redor, mas estava lá, sentada no mesmo banco: bronzeada, olhar intenso, corpo estonteante e lábios carnudos que muito provavelmente se abririam em um sorriso sedutor, ou seja: a encarnação dos catecismos de Carlos Zéfiro ali em pele e osso. Não que Américo admitiria ter lido Zéfiro. Valores!
— Que perfeição! — pensou.
Ela agradeceu surpresa.
— Obrigado!
— Meu Deus! Pensei alto de novo!
Ela riu, mas sen deboche. Achou realmente graça do susto de Américo e de como corava. Achou tenro, vulnerável até. Fazia anos que não via um homem enrubecer. Ela encobriu o riso com as mãos, e enquanto se recompunha perguntou:
— Você tem filhos?
— Não. Ainda quero ter um… talvez ano que vem se tudo der certo. E você?
— Ah, o meu é aquele ali! — e apontou para uma criança de uns seis anos que brincava com outras.
— Parece bem ativo.
— Esse? É uma pilhazinha! Não para nunca.
Sorrindo ainda observavam as crianças sem enxergá-las ou ouvi-las porque os sorrisos deram lugar aos lábios secos e o silêncio de ambos esticavou aquela pausa em uma reticência tensa. Foi bem ali. Naquele momento que… bateu! Uma daquelas pausas que sem explicação vira um clima desses completamente aleatórios, mas tão óbvios que até Américo percebeu. Se entreolharam novamente. Ele desviou o olhar fingindo se distrair com o chão. Começara a suar. Emudeceu. Ela não.

— Você é legal, né?

— Como é?

Ela suspirou e franziu o nariz fazendo uma cara engraçada e completamente adorável — porque gente bonita mesmo fazendo careta não fica feia, só fica fofa. É injusto, mas como a injustiça também é cega, ela percebeu que simplesmente ser encantadora não ajudaria. Viu que Américo era bem Américo mesmo e que teria de abrir a picada com facão.

— Me chamo Vânia e moro aqui perto. Posso deixar meu filho com a empregada e peço para ela voltar com ele só lá pelas nove. Topas? — E lá estava ele: o sorriso sedutor. Americo não viu, mas não precisava. Não teve chance alguma. Meio zonzo, observou uma gota de suor cair do topo da sua testa afundando no chão de areia batida da praça e ouviu uma voz que era sua respondendo que sim.

Vânia combinou com empregada que examinou Américo de cima a baixo, levantou uma sobrancelha, deu de ombros e foi se ocupar com a criança. Sabia que nessa história seu papel era pequeno, mas faria muito bem mesmo assim.

Oito minutos depois o novo casal se atracava na sala de uma cobertura perto dali. Américo já estava nu quando Vânia voltou da cozinha vestida apenas com um robe e trazendo na mão um copo de requeijão. Era sua tara e obviamente, sendo aquilo tudo que era, deveria ter pelo menos uma. Queria ter o corpo esparramado. Américo que já não sabia mais quem era nem considerou questionar.

Até às 9 horas foi tudo tão perfeito que Vânia e Américo juraram que iriam se ver sempre. A esposa nem desconfiou muito quando encontrou um vidro de requeijão vazio no bolso do paletó.
— Deve ter caído aí quando eu fechei a geladeira lá do escritório.
Agora esse era Américo: lactcínico. Durante 20 semanas, de segunda a sexta, saía cedo do trabalho, passava na mercearia, comprava um copo de requeijão e ia à cobertura de Vânia para mais uma “sessão cremosa” (termo criado por Vânia que apenas detalho para reforçar que todo mundo nessa vida é falho).
E foi indo assim até que Américo reparou que a próxima Segunda-feira cairia em um feriado. A esposa já estava desconfiadíssima e, depois de levá-la à matinê de um cinema em Copacabana para fazer uma média, voltavam de ônibus para a casa quando o celular dele tocou. Ligação de “Josias” que era Vânia:
— Alô, Josias?
— Oi. Ela está aí? — Com ênfase no “ela”.
— Sim. Pode falar.
— Vou falar, mas você não fala nada. Eu estou ligando pra dizer que estou de mudança pronta. Não quero estragar seu casamento e seu sonho de ter um filho. O fato de eu ser separada não me dá o direito de destruir seu casamento. Estou me mudando hoje. — e desligou.
Américo ficou branco. Quase leitoso.
O ônibus passou na frente de um mercadinho e Américo viu uma caixa da marca de requeijão que Vânia gostava. Agora entravam pelo túnel e durante aquela parte escura do trajeto, Américo ebuliu. Olhou para a esposa com uma cara meio desvairada e perguntou como se pergunta qual é o credo da pessoa:
— Você prefere pão com manteiga ou pão com requeijão?
— Américo! Que pergunta é essa?
— Responde! Requeijão ou manteiga?
— Ih, Américo! Tá maluco? Margarina, né?
Se levantou e puxou a cordinha…
— Américo!

e nem olhou para trás. Atravessou o corredor em direção à porta…
— Américo! Volta aqui! Aonde você vai??

que já estava aberta e saiu por ali em direção à Ipanema. A esposa não o seguiu. Sentiu medo, vergonha ou dúvida? Não sabia. Ninguém no ônibus sabia também. Só observaram em respeitoso silêncio a cena que contariam entre risos de escárnio para qualquer um logo mais.

Américo encontrou Vânia, casou-se com ela e criaram o menino de seis anos até os 22, quando criação nenhuma resolve mais. Até hoje vivem juntos no Méier.

A ex-esposa voltou para a casa assustada e chorando. Abriu o armário de Américo para jogar suas roupas fora como manda o figurino e encontrou 140 copos de requeijão vazios. Sentou, parou de chorar e dormiu. No dia seguinte pôs um anúncio no balcão:

COPOS VAZIOS de requeijão, grandes, tenho 140, serve para artesanato, pintura, bar e lanchonete, R$ 30 por tudo. T: 597–3300.


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